CURIOSIDADES




Do outro lado do planeta, a bela e surpreendente cidade que nasceu como uma colônia de prisioneiros Os britânicos que desculpem, mas Sidney é o melhor exemplo de que a Austrália é uma versão mais tropical - e melhorada - da Inglaterra. Ela tem a organização, a limpeza, os ares primeiro-mundistas mazelas da velha "mãe-pátria": aquele tempinho miserável, os séculos de decadência, a culinária insossa e a formalidade extrema. Como numa receita bem-sucedida em que alguns ingredientes são acrescentados por acaso, tornando o gosto do prato ainda mais irresistível, a simpatia e o bom humor dos australianos, somados ao tempero que as diferentes migrações trouxeram, fizeram de Sidney uma das metrópoles mais bonitas do planeta. Está certo que para colocar os pés lá é preciso amargar cerca de 17 horas num avião, dar quase uma volta ao mundo e ainda chegar um dia atrás do que eles estão vivendo por causa das 13 horas de diferença de fuso. Mas vale a pena. Sidney, a maior cidade da Austrália, é limpa, bonita, organizada, civilizada e ainda tem outras vantagens: o aeroporto fica a apenas 20 minutos do centro e suas maiores atrações - as praias, o mar, o porto, as montanhas, o surfe e as atividades ao ar livre - são todas grátis. Quer mais? Tem. Todos os semáforos emitem um som intermitente indicando aos que não enxergam direito a hora de atravessar. As calçadas são rebaixadas e, se você parar por mais de alguns segundos com um mapa aberto numa esquina, a probabilidade de alguém lhe oferecer ajuda é altíssima. As ruas não têm fiação elétrica aparente nem outdoors, apenas discretos cartazes de lojas. Assim o olhar descansa e, enquanto se vai andando, aparecem surpresas agradáveis, como a vista do mar, uma nesga de Sydney Harbour (o porto em volta do qual a cidade cresceu) se esgueirando em um cruzamento ou ainda uma charmosa ladeira que lembra São Francisco, embora seja menos pronunciada, dando o ar das suas curvas à cidade. Não bastasse ser limpa e bela, Sidney ainda é organizada. Os locais dizem que ao contrário de Melbourne (com a qual há uma rixa tipo São Paulo/Rio), que foi planejada, Sidney cresceu desordenadamente. Mas os australianos não têm a mais vaga idéia do que seja de fato desordem. Qualquer morador da cidade que passasse apenas uma tarde no centro de São Paulo, depois de se desesperar profundamente, teria de repensar o que significa para ele a palavra caos. Aqui não há gritaria, vendedores ambulantes, sujeira ou violência. As mansões dos bairros requintados ficam escancaradas para a rua ou para o mar sem sombra de guaritas, grades ou muros - atestando o alto nível de vida. Só para ter uma idéia, o salário mínimo na Austrália é de 20 mil dólares australianos ao ano, o que significa cerca de 1 450 reais por mês. E como se beleza e boa vida fossem pouco, a cidade ainda pratica um misto de igualitarismo pragmático com natural indiferença que acaba resultando em cosmopolitismo sem preconceitos. Pode-se entrar esfarrapado e com uma mochila suja no melhor hotel cinco estrelas da cidade que ninguém vai dar ao menos uma medida. O tratamento, gentil, será o mesmo dispensado ao freguês do lado, que pode ser um senhor de terno. Em Sidney, aparência não é documento. Numa tarde de outono em Bondi Beach, uma das praias da cidade, uns passeiam encapotados enquanto outros tomam duchas de biquíni. Uns fazem cooper, ginástica, patinam, outros andam descalços, surfam, nadam, jogam bola ou passeiam com o cão, sem que ninguém ache estranho a atividade alheia. Os que estão na água nem se espantam com os capotes, os agasalhados não parecem sentir frio pelos surfistas. Em Sidney, cada um faz o que quer. Tolerante, a cidade acolhe diferenças e as organiza harmoniosamente. Tanto que é tida como a segunda cidade gay do mundo (depois de São Francisco). É legalmente permitido no Estado de New South Wales (do qual Sidney é capital) que um homem faça sexo com outro desde que ambos sejam maiores de 18. Entre mulheres, a idade cai para os 16 anos. A prova dessa liberalidade é que o evento mais famoso da cidade é o Gay & Lesbian Mardi Gras, que acontece em fevereiro, com direito a desfile carnavalesco, teatro e performances, e termina com uma enorme festa na Royal Agricultural Society's Showground, para a qual são vendidos 20 mil ingressos, disputados a tapa. O evento tornou-se tão popular que passou a ser televisionado, já que uma audiência de 500 mil pessoas não tinha por que ser desprezada. Ele gera mais dinheiro e atrai mais turistas do que qualquer outro no país. Mas não é apenas com preferências sexuais que Sidney é complacente. Ela abriga comunidades das mais diferentes partes do planeta, que festejam sem problemas datas tão díspares quanto o Ano Novo chinês, o aniversário da rainha da Inglaterra ou a Páscoa grega. Embora até antes da Segunda Guerra Mundial, a maior parte da população (hoje 3,7 milhões de habitantes) fosse de descendentes de ingleses e irlandeses, depois dessa data houve enormes migrações da Grécia e Itália, bem como da antiga Iugoslávia, do Líbano e da Turquia, sem contar vietnamitas, cambodjanos, tailandeses, filipinos e indianos, entre outros, que chegaram depois, atraídos pelo alto nível de vida. Estima-se que 15% dos australianos falem outra língua que não o inglês quando chega em casa, e que em Sidney essa proporção seja ainda maior. Mas foi graças a todos esses povos, sem esquecer os aborígines, que já estavam ali antes de todos eles, que em Sidney é hoje comum encontrar jornais chineses, restaurantes libaneses ou ouvir no mercado de final de semana no bairro antigo de The Rocks ninguém menos do que Daniela Mercury, apregoando em altos brados pelos alto-falantes que o canto dessa cidade também é ela - acredite se quiser. Quanto às comidas, nem se fala. Aqui se pode degustar de McDonald's a refeições malaias, de pratos da Indonésia até combinações de culinária francesa com produtos australianos típicos, como canguru. Parece uma ironia bem planejada do destino que em apenas 200 anos uma cidade que surgiu para ser uma colônia penal, onde as pessoas seriam levadas para ficar segregadas da sociedade, se transformasse nessa terra cosmopolita e liberal. Se o intrépido capitão inglês James Cook pudesse voltar para ver o que deu aquele pedaço perdido de terra seca e inútil, fatalmente não acreditaria nos seus olhos. A história de Sidney começou porque as cadeias na Grã-Bretanha estavam superlotadas e a Guerra de Independência americana interrompeu o transporte de convictos para a antiga colônia. Nesse ponto, alguém sugeriu que a Austrália - então New South Wales - seria um bom lugar para uma colônia criminal. A idéia foi aceita e uma expedição do capitão Cook aportou em Port Jackson, como foi batizado o porto de Sidney, em abril de 1770. O primeiro grupo de prisioneiros (759 homens e mulheres) chegou em 1788 em onze navios trazendo 400 marinheiros e suprimentos suficientes para dois anos. Um núcleo foi estabelecido e a cidade cresceu ao redor do porto, chegando aos 4 mil habitantes com mais dois carregamentos de prisioneiros. Mas o solo seco e arenoso deu trabalho aos recém-chegados. "Não era um lugar muito agradável para se viver", acredita Bob Charlesworth, dono de uma agência de turismo ecológico. "Não havia comida, o que eles plantaram não cresceu e num momento mandou-se até uma nave para a Inglaterra em busca de mais mantimentos", conta. Só que naquela época uma viagem da Austrália à Inglaterra, que hoje, de avião, já não é das mais curtas, demorava meses. Quando os navios retornaram com as provisões, vários coitados deixados na ilha já haviam morrido de fome. Dificuldades à parte, a cidade prosperou e somente dois séculos mais tarde não só tendências gastronômicas e povos vivem ali amigavelmente como até a arquitetura da cidade é um exemplo de sucesso e boa vizinhança. Como um bom uísque, Sidney tem um blend de velho e novo curiosamente harmonioso: a arrojada Sydney Tower, com seus 325 metros de altura, e as típicas casinhas em estilo inglês vitoriano parecem se entender perfeitamente. Uma secular igreja de pedras surge ao lado de um arranha-céu espalhado. E o requintado e o popular - Kings Cross, o bairro da luz vermelha com suas casas de strip-tease, prostitutas e baixo mundo - e a sofisticada Opera House completam o cenário de diversões da cidade lado a lado sem maiores rusgas. A Opera House, cartão-postal mais manjado da cidade, começou a ser construída em 1959 e foi inaugurada oficialmente pela rainha Elizabete II catorze anos depois de muitas demoras, disputas e dificuldades técnicas. Mas valeu a pena. Ela é imbatível tanto para assistir a uma ópera ou um concerto gratuito aos domingos quanto para tomar um vinho na varanda do café, olhando o porto. Ali o único problema são as gaivotas, que ficam de olho na comida e são mestras em abocanhar o petisco alheio. A construção foi fruto de uma competição internacional de design vencida pelo dinamarquês Jorn Utzon e o projeto revelou-se um pesadelo de custos mal calculados e dificuldades técnicas. A Opera custou mais de 100 milhões de dólares e, Utzon, que brigou e abandonou a obra, não a viu terminada. Mas esse não foi o único projeto ousado e caro da cidade, que se prepara para ser sede das Olimpíadas no ano 2000 e parece não ter herdado nem uma pitada do conservadorismo inglês. O antigo símbolo de Sidney, a ponte Sidney Bridge, por exemplo, foi feita em duas metades, partindo cada uma de uma das costas do porto, sob a batuta de um time de engenheiros que cruzavam os dedos para que seus cálculos estivessem certos e elas se encontrassem no meio do caminho. O encontro de fato aconteceu, depois de nove anos de espera, com uma diferença de poucos centímetros que foi facilmente contornada. O problema foi que logo antes uma tempestade com ventos de mais de 100 quilômetros por hora se abateu sobre a cidade, balançando os dois pescoços de ponte como se fossem dois pescoços de girafa enlouquecidos por toda uma noite. Tormentas à parte, a ponte foi salva e hoje carrega cerca de 160 mil carros por dia, além de bicicletas e pedestres. É tão colossal que pintá-la novamente levaria dez anos. Mas os australianos, e principalmente os habitantes de Sidney, estão acostumados a coisas grandes, e a grandes espaços. Digna de uma ilha de proporções continentais, Sidney é uma das cidades mais espalhadas do mundo. Antigamente as casas eram construídas uma grudada na outra como na "mãe Inglaterra", mas depois se percebeu que não havia razão para tanto. "Nós temos espaço e o ocupamos, aqui todos querem uma casa e vão se espalhando", explica Bob Charlesworth. Sidney acomodou-se, espaçosa, entre o mar e as Blue Mountains, uma cadeia de picos a 70 quilômetros da costa. E ocupa 120 quilômetros entre norte e sul. Acostumados a fazer tudo em grande estilo, os australianos também bebem em quantidades industriais. Há álcool à diposição por todos os lados em lojas que vendem apenas bebidas, algumas inclusive com sistema de drive thru. Os pubs são o lugar de encontro predileto as cervejas, de vários tipos, são popularíssimas e o vinho produzido na ilha é o orgulho local - melhor que o vinho francês, segundo muitos australianos (hoje apoiados por enólogos de peso). O gosto é tamanho que muitos restaurantes trazem estampados na entrada em letras garrafais a misteriosa sigla BYO. É o código para Bring Your Own, ou seja, "traga o seu" e refere-se ao seu vinho ou bebida predileta. É assim que fazem os locais: passam numa das tantas lojas de bebidas da cidade, compram seu spirit preferido e adentram o restaurante com a(s) garrafa(s) em mãos. O estabelecimento cobra entre 1 e 2 dólares para abri-las, mas mesmo assim fica mais barato do que comprar o vinho marcado no cardápio (se eles tiverem licença para comercializar álcool) e você pode trazer aquele que mais lhe agrada. Há em outra cidade maneira mais civilizada de se tomar um porre?




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